Será que Deus é injusto?

imagesComo todos os domingos, me arrumei com dedicação e fui para a casa de Deus. O templo estava lotado, os fiéis se acotovelavam a procura de um lugar para sentar-se. Um falatório muito grande. Fui adentrando a nave, também em busca de um lugar. Consegui um lugarzinho avulso na lateral. Ao sentar-me percebi que os primeiros cincos bancos, que ficam bem de frente ao altar, estavam reservados, cercados com uma larga fita azul. Como cada banco tem quatro lugares, seriam vinte pessoas que se sentariam ali.

Logo descobri que seria o aniversário de quatorze anos de profissão do dirigente de Deus e talvez seriam os bancos reservados, para os seus familiares e quem sabe amigos.

Pensei com meus botões, se seria justo essa reserva de lugares, já que tantas senhorinhas e senhorzinhos, estava também procurando se acomodarem.  

Levantei do meu lugar e cedi há uma senhora de bengalas, ficando em pé bem junto aos bancos reservados. Bem em cima da hora da cerimônia, o povo da reserva, começou a chegar.

Eram pessoas que eu nunca havia visto por ali. Estavam muito bem vestidos, eu diria até que vestidos para uma festa. Os perfumes se confundiam pelo ar, me dando um ligeiro enjoo. As mulheres estavam cheias de joias. No dedo anular de uma das mulheres, havia uma grossa aliança de ouro, um anel de brilhantes, um solitário de pérola negra e uma aliança de rubis, cobrindo todo o dedo dela.

Novamente pensei com meus botões, como que nos dias de hoje uma mulher sai com tantas joias assim. E podem ter certeza que era joias verdadeiras.

Conversavam muito entre eles e eram cumprimentados por quase toda a Igreja. Num dado momento alguém fez um psiu bem alto e emendou que queria ouvir a pregação, o que fez que todos esses reservados se calassem. Com os celulares  tiravam fotos do altar, das pessoas, e de tudo que eles achavam necessários registrar.

Na hora do canto e louvor a Deus, uma senhora que coopera com a igreja há muitos anos, cantava o hino alto e pedia a igreja para cantarem também a Deus. Um dos maridos dos reservados ficou rindo da mulher e comentando com a esposa ao lado.

Não será necessário dizer que a minha concentração de fé havia ido para o espaço e eu já não estava prestando a atenção em nada a não ser nos reservados.

Quando passou a cestinha da coleta de ofertas, eles colocavam notas de cem e cinquenta reais abertas, não tiveram nem a humildade ou a perspicácia de dobrar as notas para fazerem a oferta. Confesso que fiquei encabulada de colocar minhas míseras moedas de um real.

O interessante é que eles não paravam de conversar, cochichar, cumprimentar uns aos outros. Foi de lascar! Um senhor que estava em pé do meu lado me disse:

– De onde saíram essa gente? Apenas balancei a cabeça como dizendo que também não sabia.

Ao término do evento religioso, eles iam saindo apressados, falantes e sorridentes e no corredor de saída, onde o povo ia se afunila, eles perguntavam para uns e aos outros onde iriam almoçar.

Na rampa da igreja, iam parando carrões com seus respectivos motoristas e os casais entrando oferecendo caronas para aqueles que não estavam de carro, tiravam fotos com seus celulares de última geração.

Fiquei parada na porta da igreja, junto a rampa, olhando.  Para mim foi um espetáculo, junto com a curiosidade e alguns questionamentos a Deus!

Fiquei pensando nas joias, nos carros, nas roupas, no respeito das pessoas que os cumprimentavam e nos bancos reservados para essa turma que chegaram em cima da hora e causando. Pensei também nas ofertas altas e nos deboches com o povo de nossa congregação.

Fiquei no meu devaneio, deparando que o dinheiro fala mais alto em qualquer situação, até mesmo dentro das Igrejas e o respeito do povo para aquela gente, só porque são ricos.

Ali, Deus havia ficado em segundo plano! Não houve respeito, não ouve orações sinceras. A sociedade de hoje visa o dinheiro como forma de respeito, de importância e quem sabe de status.

Olhei para o meu jeans surrado, meu tênis roto e encarei a minha solidão de frente, pois sabia que em casa ninguém me esperava. No meu bolso somente vinte reais para passar o domingo, não poderia nem me dar ao luxo de almoçar em uma lanchonete.

Fiquei pensando nos pobres, nos miseráveis, nos doentes, nos loucos, nos hospitais cheios de doentes deitados pelo chão, pensei nos meus choros, nos meus lamentos e indaguei se Deus realmente escutava a sua igreja, seja ela quais forem.

Não sei se pensei alto ou se as minhas indagações desagradaram a Deus. Um senhor pedinte, de cabelos brancos e emaranhados, sujo e malcheiroso, falou comigo numa voz forte e grave me tirando do devaneio.

– Fica triste não senhora!!!!!!

– “Há quem se faça rico, não tendo coisa alguma, e quem se faça pobre, tendo grande riqueza. O resgate da vida do homem são as suas riquezas; mas o pobre não tem meio de se resgatar. ”

Olhei para ele que continuou:

– Ainda que o mundo honre os ricos, não se surpreenda com o facto de que Deus honra os pobres.

Fiquei olhando aquele miserável que sabia bem das escrituras bíblicas pois se não estou enganada seria Provérbios ou Matheus.

Sorri para ele que me devolveu um sorriso lindo, apesar dos dentes estragados, reforçando ainda mais em minha mente, porque Deus seria tão injusto com os necessitados. Porque uns com absurdamente muito e outros com absurdamente pouco.

Meti a mão no bolso do jeans, tirei uma das notas de dez reais e dei para o senhor, que me agradeceu beijando as minhas mãos.

Saiu todo contente dizendo em voz alta!

– Obrigada Deus!!!!! Vou fazer a minha primeira refeição do dia!

Me cortou o coração!!! Fiquei tentada a dar a ele os outros dez reais que ficou no meu bolso, porém eu também estou necessitada nesse domingo.

 

Cheguei na minha casa vazia, sentei-me no sofá e fiquei pensando nos desvios milionários dos políticos, no desperdício dos ricos, na ostentação de alguns, nos trabalhadores explorados, na luta de muitos amigos e nos vários trabalhos de meu filho para manter as suas contas pagas.

Fui para cozinha e apesar de ser domingo, fiz uma sopa de feijão com legumes e mandei para dentro agradecendo esse maná que Deus estava me proporcionando.

Seria o mundo injusto ou Deus é justo em sua injustiça arbitrativa?

Kika

About Kika

Meu nome já não importa, mais meu apelido é Kika. Sou carioca da gema, do signo de peixes. Já passei da idade dos sonhos. Por incrível que possa parecer, ainda não descobri a minha missão e no momento não estou fazendo questão. Amo a natureza e todos os seus habitantes. Gosto de ir ao cinema, ao teatro. Quase sempre escuto o bom Blues. Procuro sempre me manter ocupada, isso me faz esquecer os problemas e a solidão. Não gosto de situações aborrecidas e tediosas e muito menos ter que ser simpática quando não o quero ser e nunca me importo com o que falam de mim ou pensam ao meu respeito. Sou direta e nunca faço rodeios. Tenho vários defeitos e não faço questão de corrigi-los. Sou assim e pronto!
Desejo que você goste da minha NAVE e qualquer contato é só deixar o seu recado que eu retorno. Muita paz a todos!

2 thoughts on “Será que Deus é injusto?

  1. Rhullya

    Kika, acredito que Deus é justo! Injustos somos nós que não entendemos a justiça de Deus e ainda o questionamos. Achei linda a sua atitude de dar 10 de seus 20 reais ao moço. Muito mais que finas joias e carrões, Deus olha o nosso coração e as nossas intenções. E Ele é bom. O tempo todo! Paz! (:

    • Desculpe-me Rhullya, só responde hoje, quase um ano depois. Vocês esta certíssima! Deus sabe de todas as coisas e conhece os seus. Mil kiss

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