A menina e o Crack

CracolândiaNo salão onde faço as luzes do meu cabelo, chegou uma nova manicure. Uma menina de vinte e poucos anos, magrinha, cabelos cor de rosa desbotado, olhos verdes e um sorriso largo num rosto esquelético.

Percebo que todos os funcionários do salão, principalmente as manicures, estavam presenteando-a com esmaltes, alicates e produtos de manicure. Ela demonstrava agradecimentos, sempre sorrindo.

Perguntei sobre ela ao meu cabeleireiro, que logo meu deu a ficha da menina. Era filha da amiga de uma das proprietárias do salão. Estava dando uma chance para a garota, por esta saindo da clínica de reabilitação para viciados em crack.

Havia cursado o primeiro semestre na Faculdade de Engenharia Civil, onde conheceu o crack e se viciou. Por duas vezes esteve internada para recuperação e essa era a terceira vez.

Fiquei olhando para aquele ser magrinho, aquele projétil de gente e me deu uma pena danada, mais ao mesmo tempo eu estava duvidando que ela iria levar aquela chance até o fim.

Resolvi fazer as unhas das mãos com ela e o trabalho foi uma perfeição.

Voltei ao salão dois meses depois para refazer as luzes do cabelo e logo procurei aquela menina dos cabelos rosa. Meu cabeleireiro me informou que ela fugiu novamente e estava na cracolândia. A mãe estava com câncer devido a tanto sofrimento com a única filha.

Confesso que meus olhos se encheram d’água e lamentei muito por mãe e filha.

Dias desses, precisei ir até o Centro da Cidade, na Rodoviária Novo Rio. O Ônibus que eu tomei me deixou atrás da Rodoviária, onde exatamente tem uma Cracolândia. Andei muito rápido para atravessar a rua e seguir meu caminho por dentro da Rodoviária, para sair daquela zona de viciados, prostituição, mendigos e álcool. Quando já estava na porta da Rodoviária, uma viciada pegou meu braço e pediu comida. Quando virei, deparei com a menina dos cabelos cor de rosa e não pude acreditar no que meus olhos estavam vendo.

Um farrapo de gente, de mulher. O cabelo todo picotado, arrancado sei lá o que, mais ainda naquele tom rosa desbotado. O rosto muito magro, diria até chupado. Suja, maltrapilha e com uma barriguinha de mais ou menos quatro meses.

Falei que a conhecia do salão, mais foi impossível ela lembrar-se. Aproveitou e falou que era uma manicure de mão cheia e que falava inglês e Francês. Sorrir para ela exclamando que eu não duvidava e que sabia que ela havia iniciado os estudos superior. Ela baixou os olhos como estivesse se lembrando dos tempos de estudante.

Dirigi-me à uma das lanchonetes e pedi um prato feito para ela e refrigerante. Ela logo me indagou se eu poderia pedir para viagem pois ela queria dividir com o companheiro dela, também viciado. Pedi duas quentinhas, pão, refrigerantes e uma barra de chocolate, que estava exposto na vitrine, que ela não tirava os olhos. Peguei a sacola entreguei para ela e perguntei se ela estava grávida. Sorrindo confirmou e disse que seria o terceiro filho.

Eu ia tentar argumentar com ela sobre o vício e a criança que estava no ventre dela, mais logo percebi que seria em vão. Ela estava meia chapada, sonolenta, com a fala arrastada e com muita fome, pois pegou o farnel e saiu rapidamente da Rodoviária. Acompanhei ela com os olhos cheios de lágrimas, até ela desaparecer por um buraco no muro, que dava para a outra rua.

No dia seguinte fui até o salão e contei para o meu cabeleireiro que lamentou também e disse que uma das crianças havia morrido logo após o parto, não aguentou o crack e o primeiro filho tinha déficit de aprendizagem e não sabia distinguir um gato de uma lebre.

Ao saber pelos noticiários, que um brasileiro seria fuzilado na Indonésia, por desembarcar com 13,4 quilos de cocaína escondidos na armação de uma asa delta e saber da comoção dos compatriotas, fiquei pensando, se não seria por culpa de um indivíduo desse, e muitos outros, que ainda estão pelo mundo, que a menina dos cabelos rosa, deixou de ser uma Engenheira Civil, ou até mesmo uma ótima manicure. Por culpa de seres como esses, que enriquecem as custas dos viciados, mantando crianças ainda no ventre, destroçando mães e aniquilando com famílias inteiras.

Uns defendem a prisão perpétua, outros a pena de morte, e por incrível que possa parecer, para alguns, esse traficante foi um herói!

Meu único filho, trabalhador, estudioso, responsável se casou e está muito feliz e por não morar mais comigo, tive um pouco de mim entristecido, imagina se eu visse meu filho numa Cracolândia feito um farrapo, ou se eu soubesse que através de meu filho, é que existem tantos, milhares, de farrapos humanos, esperando a morte por overdose.

Prefiro vê-lo morto!!!!

Assim, como minha amada mãe, preferiu ver seu filho, nosso irmão, morto na sarjeta, inchado, manchado, com a carne podre e com o braço todo cheio de marcas de agulhadas.

Ela me disse:

– Foi melhor! Acabou o sofrimento dele e o meu, por vê-lo degradado na sarjeta. Nessa noite, choramos juntas por horas. E ela ainda emendou:

– Nunca mais ele vai roubar ninguém e me envergonhar.

Eu entendi perfeitamente a minha mãe!

 

 

Kika

About Kika

Meu nome já não importa, mais meu apelido é Kika. Sou carioca da gema, do signo de peixes. Já passei da idade dos sonhos. Por incrível que possa parecer, ainda não descobri a minha missão e no momento não estou fazendo questão. Amo a natureza e todos os seus habitantes. Gosto de ir ao cinema, ao teatro. Quase sempre escuto o bom Blues. Procuro sempre me manter ocupada, isso me faz esquecer os problemas e a solidão. Não gosto de situações aborrecidas e tediosas e muito menos ter que ser simpática quando não o quero ser e nunca me importo com o que falam de mim ou pensam ao meu respeito. Sou direta e nunca faço rodeios. Tenho vários defeitos e não faço questão de corrigi-los. Sou assim e pronto! Desejo que você goste da minha NAVE e qualquer contato é só deixar o seu recado que eu retorno. Muita paz a todos!

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