Esta com manteiga?

Hoje acordei muito cedo e fui logo às compras para garantir a semana. Pensei em ir primeiro na padaria para comprar o pão que àquela hora estava saindo quentinho. Estava chovendo fino, com uma temperatura agradavelmente fria. Então resolvi cortar caminho por um beco que corta a rua onde moro no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Nesse beco, há alguns meses esta pernoitando um morador de rua. Um Homem muito alto, barrigudo, pesando aproximadamente 150ks, branco e com uma vasta cabeleira grisalha, até bonita. É notório que ele é um homem culto. Fala o português corretamente e algumas línguas estrangeiras, como o Inglês, francês, espanhol e arranha o alemão. Ele é bastante articulado, não mexe com ninguém e é até gentil, quando alguém se dirige a ele. Lê sempre os jornais do dia e esta sempre com um livro nas mãos.

Como era muito cedo, não tinha quase ninguém na rua e quando entrei no beco, avistei logo esse senhor, com um short fino de estampa florida, mostrando ser uma vestimenta feminina, que alguém piedoso deve ter dado a ele. Uma camiseta curta que deixava o barrigão todo de fora e os cabelos totalmente encharcados pela chuva. Confesso que fiquei com muita pena dele.

Quando passei por ele, gentilmente ele me deu bom dia e pediu se eu poderia pagar o café para ele. Nas mãos ele segurava um velho livro de Pablo Neruda. Falei que na volta eu pagaria o café e segui meu caminho com o coração apertado de ver aquele ser humano nessas condições.

– Quem seria ele?

Ao fazer as minhas compras, pedi mais dois pãezinhos, embrulhados separados, para eu levar para ele, comprei algumas bananas e separei alguns trocados no bolso de trás da calça para ele comprar o café.

Voltei pelo mesmo caminho e lá estava ele andando em círculos e lendo o livro, recitando alguns poemas de Neruda. A me ver veio ao meu encontro. Estendi as bananas e o pão para ele. Ele sorridente abriu o saco dos pães e me perguntou:

– Esta com manteiga?

– Não! Acabei de comprar. Por quê? Você só come se for com manteiga?

E fiquei olhando duro pra ele com uma vontade imensa de rir.

– Não senhora! Eu como assim mesmo. É que com manteiga é mais gostoso.

Dei então os trocados para ele e disse para ele ir comprar o café, numa lanchonete que tem próximo.

Ele então fez reverencias, sempre sorrindo e me agradeceu em português e inglês.

– Obrigado senhora! Thank you!

Sempre sorrindo emendou:

– Que deus te dê em dobro.

E se dirigiu para a lanchonete para comprar o café. Fiquei ali parada para ver se ele ia mesmo comprar o café. Ele pediu um copo duplo de café com leite, estendeu o saco dos pães para a menina e mandou essa:

– Passa uma manteiguinha aqui, por favor!

Comecei a rir e lamentei muito a situação desse senhor.

Mais de qualquer forma… Pão sem manteiga… Nem pensar!

Kika

About Kika

Meu nome já não importa, mais meu apelido é Kika. Sou carioca da gema, do signo de peixes. Já passei da idade dos sonhos. Por incrível que possa parecer, ainda não descobri a minha missão e no momento não estou fazendo questão. Amo a natureza e todos os seus habitantes. Gosto de ir ao cinema, ao teatro. Quase sempre escuto o bom Blues. Procuro sempre me manter ocupada, isso me faz esquecer os problemas e a solidão. Não gosto de situações aborrecidas e tediosas e muito menos ter que ser simpática quando não o quero ser e nunca me importo com o que falam de mim ou pensam ao meu respeito. Sou direta e nunca faço rodeios. Tenho vários defeitos e não faço questão de corrigi-los. Sou assim e pronto! Desejo que você goste da minha NAVE e qualquer contato é só deixar o seu recado que eu retorno. Muita paz a todos!

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