Você teria coragem?

Depois de alguns meses trabalhando intensamente e até nos finais de semana, hoje me dei ao luxo de passear pela cidade. Ajeitei como pude o corpo esgotado, passei algumas horas pranchando o cabelo e arrisquei numa maquiagem leve. Calcei as mesmas sandálias de sempre pequei a bolsa surrada e sai lépida e fagueira para uma turnê sem compromissos.

Minha colega já me espera na porta do meu prédio de shortinho e uma bata muito singela, altos tamancos no pé e uns enormes óculos escuros no rosto. Comecei a rir dela perguntando aonde ela iria vestida daquele jeito. Tudo bem se ela fosse uma menina de dezoito anos, mais aos sessenta e quatro anos achei um pouco demais. Mesmo assim ela esta podendo.

Resolvemos caminhar pelo calçadão da praia de Ipanema e pude sentir o frescor da brisa no meu rosto e o mormaço do sol que teimava em se esconder. Foi muito bom para o meu espírito que ria silenciosamente dentro de mim. Eita… Praia bonita!

Tomamos água de coco, almoçamos, rimos e fomos para o Shopping do rio Sul olhar as vitrines. É para olhar mesmo gente! Pois não tínhamos grana na bolsa para arriscar nenhum pacote.

Tão logo pisamos no Shopping fiquei boquiaberta com a decoração de Natal e nesse momento me dei conta que mais um ano estava se acabando.

– Nossa! Já é natal!

Minhas lembranças tentaram acabar com o meu dia passando em 3D Natais que ficaram para trás.  Minha colega freneticamente me puxou pelo braço para juntas admirarmos a decoração.

Imensas Árvores de Natal, bolas, presépios, guirlanda, papais Noéis, neves e luzes coloridas. Tudo muito bonito e utópico. Subimos as escadas rolantes e ficamos por um quarto de horas olhando lá de cima toda a movimentação natalina. Tanto ela quanto eu, estávamos saudosas. Saudosas de nossa gente, da mesa farta, da alegria, dos presentes, do riso e da canção natalina e da união familiar.

As pessoas estavam irreconhecíveis. Andavam apressadamente por todos os lados, carregando imensas sacolas de compras com os nomes das lojas e falavam ao mesmo tempo nos celulares. Madames, patricinhas, crianças e jovens, circulavam pelos imensos corredores num misto de desespero e alegria, agarrando apertado os seus presentes comprados. Os preços estão altos, mesmo assim as pessoas compravam compulsivamente.

Parei de pensar em mim e lembrei-me das crianças que nunca viram nem mesmo essas decorações. Lembrei-me dos pequeninos que todos os anos faço questão de ajudar mesmo que para isso eu tenha que sacrificar o meu Natal. Lembrei-me da minha pequenina nordestina que me pediu uma caixa de bombom para dar para a vovó dela. Do meu pequeno maranhense que me pediu um skate colorido e da pequena paraibana me perguntando se Papai Noel era Deus!

Putz… Gente! Chorei.

Minha colega adivinhando os meus pensamentos e imaginando as minhas lembranças, saiu num discurso inflamado dizendo que a essência do Natal havia se acabado.

– É verdade! O Natal acabou e deu lugar ao consumo desfreado, as decorações HOLLYWOODIANAS e um bando de pessoas sem noção da realização dessa festa.

– Algo Surreal!

Falei para a minha colega dessas lindas e frágeis crianças puras. Vendo que ela se interessou e se fragilizou, perguntei se ela teria coragem de sacrificar o Natal dela em prol dessas inocentes e humildes crianças sonhadoras.

Minha colega topou na hora! Saímos do Shopping e fomos para os Correios ler as cartinhas dos pequenos sonhadores.

E você teria coragem de sacrificar uma parte do seu lindo e farto Natal para fazer sorrir uma criança que nem mesmo sabe o que é ter água numa torneira?

Deixaria o seu status afirmado, na compra de presentes caríssimos para apenas comprar uma boneca, um carrinho ou até mesmo uma caixa de bombom para essas crianças que sonham com uma vida melhor?

Daria algo mais barato para seus filhos para poder comprar calçados e roupas para essas crianças?

Trocaria o pernil ou o Chester para comprar uma cesta básica para que esses também pudessem cear a mesa com alegria?

EU troco qualquer festa de Natal para estar junto com essas crianças e presenteá-las em nome de Deus-papai Noel.

É gratificante o brilho no olhar e o sorriso no rosto. Depois de tudo o agradecimento humilde dos adultos nos abraçando verdadeiramente num abraço caloroso, sincero e cheinho de amor de Jesus.

Você teria coragem?

Kika

About Kika

Meu nome já não importa, mais meu apelido é Kika. Sou carioca da gema, do signo de peixes. Já passei da idade dos sonhos. Por incrível que possa parecer, ainda não descobri a minha missão e no momento não estou fazendo questão. Amo a natureza e todos os seus habitantes. Gosto de ir ao cinema, ao teatro. Quase sempre escuto o bom Blues. Procuro sempre me manter ocupada, isso me faz esquecer os problemas e a solidão. Não gosto de situações aborrecidas e tediosas e muito menos ter que ser simpática quando não o quero ser e nunca me importo com o que falam de mim ou pensam ao meu respeito. Sou direta e nunca faço rodeios. Tenho vários defeitos e não faço questão de corrigi-los. Sou assim e pronto! Desejo que você goste da minha NAVE e qualquer contato é só deixar o seu recado que eu retorno. Muita paz a todos!

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