Esqueleto no Armário

Há sete anos passados, no segundo andar do prédio onde eu moro, morava um casal já de idade que se mudaram do apartamento por brigas com a vizinha de porta. Após um bate boca séria e a última discursão, o casal saiu pela portaria do prédio levando somente a bolsa da mulher e a pasta de mão do homem. Soubesse muito tempo depois que eles haviam comprado um apartamento de cobertura de frente para a praia. O apartamento do segundo andar manteve-se fechado até hoje.

Sr. Homem e Sra. Mulher (assim que vou chama-los) são uns casais de intelectuais. Sr. Homem é formado em direito, administração, ciências contábeis e economia. Fala cinco idiomas e tem vários cursos de especializações. Sra. Mulher é também formada em direito, pedagogia, biologia, historia das artes e também fala alguns idiomas. Eles são tidos como um casal muito estudioso e respeitado. Homem e mulher tem um filho, hoje aproximadamente quarenta anos. O filho tem problemas de transtornos mentais e uma memória fotográfica. Por esse motivo passou a vida toda internado em casas de saúde apropriada para a sua enfermidade, vindo visitar seus pais somente em datas especiais o que causava um transtorno para nós moradores.

Sra. Mulher dizia que seu filho se tornou problemático de tanto estudar. Achamos que o casal também não batia bem das ideias. Dizem que enquanto eles moravam aqui, nunca ninguém de fora entrou no apartamento deles. Nem bombeiros, médicos, farmacêuticos, visitas, parentes e quando chegava alguma encomenda para o casal, eles iam até a portaria pegar.

Falava-se também que eles não tinham o hábito de tomar banho e acho que era verdade porque eles usavam perfume muito forte. O cheiro deles era insuportável, uma mistura de cheiro de suor com perfume forte. Tipo perfume francês mesmo. O cabelo de ambos era oleosos e grudados na cabeça. Mais sempre estavam impecavelmente vestidos, com ternos e vestidos de marca. Mulher ostentava algumas joias, no tempo em que ainda se podiam usar joias, mais as unhas eram encardidas e sujas de tintas de pintura em telas, pois ela também era artista plástica.

Semana passada Homem veio a ter com o porteiro do meu prédio. Perguntou se o meu porteiro poderia limpar, organizar e consertar algumas coisas no apartamento mediante uma boa gratificação. Eu diria até ótima gratificação. Meu porteiro sem saber o que o esperava no interior do apartamento aceitou de bom agrado pensando na boa gratificação. Homem também pediu ao porteiro para me perguntar se eu poderia catalogar seus livros, revistas, documentos, fotos e digitalizar tudo por ordem alfabética, autor, tema e coleções e que eu deveria desenvolver um programa onde seria tudo digitalizado e enviado para ele via internet. O pagamento por essa tarefa, aparentemente simples era irrecusável.  Vi a esperança de consegui sanar alguns problemas financeiros. Disse sim alegremente, sem ter visto o interior do apartamento assim como o meu porteiro.

Recebemos as chaves e marcamos para um final de semana para começarmos o serviço. Ao abrirmos a porta e adentrar o recinto, não suportamos o cheiro que vinha do interior do apartamento. Um cheiro insuportável que não conseguimos definir. Cheiro de mofo, com sujeira, suor e algo fétido mesmo. O apartamento estava muito escuro e ao acedermos à luz ficamos estupefatos com o que vimos.

Havia teias enormes de aranhas vindos das paredes de tom desbotado de verde e toda descascadas pela ação do tempo. Havia ratos e baratas. Não conseguimos num rápido momento decernir o que havia naquela sala. Algo parecido com um sofá esburacado, sujo e cheio de roupas, panos e trecos em cima. Uma pequena mesa, num canto da parede com um prato ainda com restos de alimentos ressecados pela ação do tempo e uma jarra desbotada de vermelho, mostrando que ali tivera algum líquido. Havia também nessa mesa talheres, lápis e livros. Muitos livros.  Havia faltas de tacos por todo o assoalho da casa e coberto com pedaços de carpete, talvez para não tropeçarem nos buracos. Num canto muitas caixas de papelão cheias de papel, livros e objetos não identificados. Uma cadeira quebrada e dezenas de almofadas sujas e rasgadas. Tentamos abrir as janelas e percebemos que elas eram pintadas de preto e pregadas com imensos pregos para que não fossem abertas. O interior do apartamento era bem escuro apesar do lindo lustre que saia do teto, também maltratado pelo tempo.

Para auxiliar a visão acendi a lanterna do meu celular e seguimos até a cozinha, que também estava uma verdadeira desordem, sujeira e coisas que no momento não dava para identificar. No fundo da pia da cozinha louças sujas e ressecadas. Saleiros (vários) açucareiros, caixas de papelão com muitos produtos de limpeza sem ter sido abertos. A pequena mesa da cozinha estava cheia de coisas sujas. Havia também portas retratos e saboneteiras. Na área ainda havia trapos de roupas pendurados no varal e roupas para lavar dentro do tangue. Resolvemos olhar dentro do quarto de empregada onde havia somente um armário grande de porta de correr ao abrirmos deparamos com um arsenal de armas de fogo. Calculamos que era de coleção e não demos muita importância. Um rato grande corria à medida que andávamos.

Nós dois só pronunciávamos coisas tipo: – “Meu Deus” – “O que é isso”?

Tirei meu lenço do pescoço e tampei o nariz. Meu porteiro estava com os olhos arregalados e nada dizia.

Voltamos à sala e pegamos o corredor que leva aos quartos. Em toda a extensão da parede do corredor, havia centenas de diplomas pendurados. Entramos no quarto do casal e ficamos sem voz. Havia uma quantia imensa de sacos plásticos pretos (desses de lixo) por todo o quarto, nos impossibilitando de distinguir os móveis. Arrisquei abri um saco e notamos que havia roupas, panos e muitas coisas indefinidas naqueles sacos e cheirava ainda pior. O armário embutido também estava abarrotado de roupas, casacos de pele legítima, e muitas bolsas femininas.

Voltamos e entramos no quarto seguinte e tivemos dificuldades de abrir a porta. Logo percebi que havia livros impossibilitando a abertura da porta. Ao entrarmos eu fiquei espantada. Por todas as paredes enormes estantes cheias de livros, sujo, empoeirados e com teias de aranha. Livros pelo chão, pelos móveis e por cima de uma linda mesa estilo Luiz XV. Havia também um cinzeiro de prata ainda com guimba de cigarros, uma garrafa de uísques pela metade, um copo com besouros dentro. Imaginei ter aproximadamente dois mil livros. Havia uma pequena prateleira perto da porta com dúzias de vidros de perfumes francês, americanos, espanhol e marroquino, todos pela metade. Chamei a atenção do meu porteiro para os perfumes o que começamos a rir. Meu porteiro contou por alto os vidros de perfumes dando um total de dez vidros.

Comentei com o meu porteiro que achava que não iria pegar o serviço. Eu não poderia passar um final de semana naquela escuridão e naquela sujeira. Eu havia calculado que o casal tivesse no máximo uns cinquentas livros, mais o que eu vi ali era pra mais de mil livros.

Meu porteiro de boca aberta e olhos arregalados só balançava a cabeça confirmando. Era muitos livros sujos e velhos.

Comentou que sabia que eles não limpavam a casa e muito menos tinham higiene pessoal, porém, ele não calculava que chegasse a esse ponto. Também ficamos sem entender porque a janelas pintadas de tinta preta e pregadas para não serem abertas. Lembramos então do filho do casal, talvez para evitar que ele caísse da janela.

Continuamos o tour pelo apartamento e entramos no banheiro que fica no corredor. O banheiro é muito grande e estava totalmente vazio. Não havia toalhas, nem sabonetes, tampa de vaso e ate mesmo restos de papel higiênico. Estava totalmente pelado e sujo. Havia falhas de ladrilhos cor de rosas nas paredes e em cima da pia, ainda, alguns vidros de perfumes. O basculante do banheiro estava tampado com um pano preto.

Voltamos ao corredor e entramos no último quarto, que calculamos ser o quarto do rapaz.  Não havia móveis. Somente um pedaço de carpete sujo num canto com um travesseiro e algumas cobertas em trapos, mostrando evidentemente ser uma cama no chão. Havia um sujo e imenso armário embutido na parede em frente à janela. Olhei para o meu porteiro que retribui o olhar e abrimos o armário.

Caíram algumas coisas no chão o que nos assustou e deixou a mostra um esqueleto, que aparentemente calculamos ser de uma criança de aproximadamente dez anos. Eu dei um grito tão alto que meu porteiro se assustou e correio para a sala tropeçando nas bugigangas pelo chão, eu apressadamente o acompanhei e fomos para o hall do elevador para poder recobrar do susto e respirar um pouco. Meu coração batia apressadamente no peito e uma vontade imensa de urinar.  Ficamos ali por algum segundo em silêncio um olhando para o outro.

Fizemos milhões de conjecturas e resolvemos voltar ao apartamento para examinar melhor o achado. Pequei uma lanterna no meu apartamento e adentramos bem devagar no quarto. Morrendo de medo, como se o esqueleto fosse se levantar daquele armário e nos pegar.

Olhamos bem de pertinho e vimos que se tratava de um esqueleto mesmo. Estava sujo e cheio de teias de aranha e no interior de uma das costelas um maravilhoso ninho de ratos.

Decididamente eu não iria pegar o trabalho e agora eu entendia porque ele estava remunerando bem.

Falei pro meu porteiro que deveríamos chamar a polícia. Meu porteiro não achou uma boa ideia, não queria se comprometer com coisas do passado. Pensamos em chamar o síndico, o vizinho, Deus… Sei lá! Ficamos atordoados. De quem seria aquele esqueleto? E quem os deixou ali para morrer? Meu porteiro achou por bem não pegarmos o serviço, mais teríamos que explicar para o Sr. Homem, porque não aceitaríamos o trabalho.

Nesse meio tempo escutamos a porta da rua bater. Levamos outro susto e corremos para a sala para ver quem era. Sr. Homem já estava no meio da sala e quase que nos pega bisbilhotando o armário onde repousava o esqueleto.

Ficamos totalmente constrangidos e não conseguíamos falar nada. Sr. Homem percebeu o nosso embaraço e foi explicando o porquê da sujeira e desorganização do apartamento. Falou que ele e sua esposa não tinham tempo para os afazeres domésticos e a Sra. Mulher não gostava de gente estranha em sua casa, por isso eles nunca tiveram uma empregada. No começo eles faziam as refeições na rua e levava as roupas para lavar na tinturaria. Com o passar do tempo eles foram envelhecendo e não sobrava mais disposição para essas obrigações. Procurou enfatizar, garantindo que na cobertura atual onde eles agora moravam eles tinham empregados e era tudo limpo. Explicou-nos em detalhes que a esposa estava atualmente muito doente e que a velhice estava muito avançada para os dois.

Sr, Homem tem um problema de coluna, obrigando-o a ficar corcunda com a cabeça quase perto dos joelhos, O que facilitava bastante para eu olhar para o meu porteiro furtivamente sem que ele pudesse capitar esse gesto.

Gaguejei um pouco sem encontrar as palavras certas, mais disse a ele que eu não imaginava tantos livros, o que ele me garantiu ser seis mil livros ao todo pela casa. Meu porteiro também tentou se esquivar do compromisso assumido e resolvemos junto falarmos da sujeira e da escuridão da casa.

Sr. Homem disse que sua esposa sofre de enxaqueca, impossibilitando-a de ver a luz do dia, por isso, a tinta preta nos vidros da janela. Evidentemente que não acreditamos nessa conversa fiada.

Ainda insistindo bastante conosco, tentou dobrar o valor do serviço, quando eu falei na lata e diretamente sobre o esqueleto que estava no armário do quarto do meio.

Sr. Homem caiu na gargalhada, nos deixando sem graça e muito sem jeito.

Falou que sua mulher estudou para médica legista, pois queria trabalhar na área de medicina legal e que não chegou a concluir o curso se interessando pelas artes plásticas e que aquele esqueleto era de resina.

Falei da minha intensão de chamar a polícia, o que ele respondeu que a própria esposa era a polícia, pois atuou como delegada, coisa que nunca soubemos quando eles moravam aqui no prédio.

Logo minha imaginação fluiu e disse entre os dentes para o meu porteiro:

– Se ela era delegada de qual bandido seria esse esqueleto?

Sr. Homem, querendo finalizar aquele papo fúnebre e de terror, queria saber quando entregaríamos o serviço.

Fiz um gestual de olhar em volta, dizendo que ali havia trabalho para mais de meses e que a remuneração que ele havia me proposto era muito pouco para tamanha labutação.

Ele pediu o meu preço e achou muito caro quando mandei cinco salários mínimos mensais pelo tempo que durasse a organização da biblioteca e trabalhando somente três vezes na semana já que tenho emprego.

Meu porteiro por sua vez não quis assunto e nos retiramos dali o mais rápido possível.

Agora quem quer se mudar sou eu. Fico pensando naquele esqueleto de resina ou não, dentro do armário do apartamento do segundo andar.

Vou encomendar na Bahia alguns patuás!

Kika

About Kika

Meu nome já não importa, mais meu apelido é Kika. Sou carioca da gema, do signo de peixes. Já passei da idade dos sonhos. Por incrível que possa parecer, ainda não descobri a minha missão e no momento não estou fazendo questão. Amo a natureza e todos os seus habitantes. Gosto de ir ao cinema, ao teatro. Quase sempre escuto o bom Blues. Procuro sempre me manter ocupada, isso me faz esquecer os problemas e a solidão. Não gosto de situações aborrecidas e tediosas e muito menos ter que ser simpática quando não o quero ser e nunca me importo com o que falam de mim ou pensam ao meu respeito. Sou direta e nunca faço rodeios. Tenho vários defeitos e não faço questão de corrigi-los. Sou assim e pronto! Desejo que você goste da minha NAVE e qualquer contato é só deixar o seu recado que eu retorno. Muita paz a todos!

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