Salva pelo Relojoeiro

Quarta feira (08/12) Nosso patrão resolveu nos presentear com o 13º salário. Quando chequei pela manhã para trabalhar encontrei meus colegas de trabalho eufóricos. Logo fui chamada para também receber o meuzinho. Ao receber o salário do mês, o 13º, férias e alguns benefícios que tenho direito, meu coração estremeceu. Não pelo fato de estar com um considerável montante monetário num chequeinho. Algo apitou dentro de mim. Meu coração se angustiou e tive um pressentimento, que não sabia bem ao certo o que as minhas antenas parabólicas estavam me avisando. Peguei o celular e mandei uma mensagem para meu filho, avisando do montante monetário. Sem saber ao certo pedi meu filho para vir me buscar no trabalho.

Foi um pedido que meu filho estranhou e logo acatou, pois trabalhamos há três quarteirões de casa. Retornou-me, avisando que estava resolvendo problemas de trabalho na Light e quando eu saísse do trabalho era para ligar para ele.

O dia passou tranquilamente e esqueci o fato. Ao sair do trabalhou lembrei-me do ocorrido. Fiquei pensando e por morar perto do trabalho não retornei a ligação para meu filho, pois ele já tem tantas coisas para se preocupar. Resolvi fazer um caminho contrário ao que sempre faço e tive a infeliz idéia de ir pela rua da Praia do Flamengo. Pensei que logo estaria em casa.

Faltando dois quarteirões para chegar á minha rua, aparelhou ao meu lado de bicicleta, um sujeito negro como uma graúna, de bermuda branca, chinelo de borracha,  camisa no ombro e boné. Ele passou bem devagarzinho e me olhou, fixando o olhar para a minha bolsa que estava atravessada no peito. Logo ele adiantou-se a minha frente e olhou para trás, meio que fazendo um sinal.

O tal pressentimento veio à tona me tomando de pavor. Também olhei para trás e vi outro sujeito da mesma discrição do primeiro, quase me alcançando, e pela lateral um moleque de aproximadamente dez anos que corria entre o trânsito da Praia do Flamengo em minha direção.

Tão rápido passou pela minha mente que eles iriam me ganhar. Levaria todo o meu dinheiro suado de muito trabalho. Eu já podia escutar eles dizendo:

– Ai Tia… Perdeu, perdeu…

Também me vi ao chão sendo chutada por eles.

O suor escorria pelo meu peito até a barriga. Um pânico começou a tomar todo o meu ser. Eu tinha que pensar rápido. Olhei para todos os lados numa rapidez incrível e não vi nenhum carro de polícia e muito menos um comércio para eu entrar. A Rua da Praia do Flamengo é só de prédio residencial, daqueles de portaria fechada, pois só moram bacanas. Há um prédio enorme que é comercial e que tem seguranças na portaria, mais eu já havia passado por ele.

Quando o filha da puta da bicicleta de trás já ia alcançar o meu pescoço, saiu da portaria de um desses prédios, um relojoeiro que trabalha numa galeria comercial e que é conhecido por todos.

Num impulso, agarrei o homem pelo braço e exclamei:

– Pôxa! Você demorou hein?

O homem olhou para mim com cara de Alá balão, choveu na minha horta.

Entre os dentes e caminhando com ele, falei:

– Eles vão me assaltar me ajuda.

Os ladrões percebendo, mudaram o rumo e foram adiante em suas bicicletas que tenho certeza também eram roubadas.

Logo o relojoeiro gritou para os seguranças do edifício comercial.

Ôoooo Raimundo….. Pega, pega….

Raimundo um tipão 4X4 armado, saiu em busca dos meliantes, enquanto outro segurança veio falar com a gente.

-Disse que nesse mês, esses assaltantes já haviam roubado quatro mulheres e um homem que trabalham no prédio comercial. Eles sabem que os trabalhadores estão recebendo seus 13º.

Em pânico eu não conseguia nem andar. O relojoeiro me levou para a loja dele, me ofereceu água e vendo o meu estado se prontificou a me levar até a rua onde eu moro.

Pensando na possibilidade dos sujeitos estarem pela rua onde moro, disse que não arredaria o pé dali se não fosse com a polícia. Eu estava tomada de pânico e ao mesmo tempo agradecida por não ter sido assaltada.

Logo me lembrei do meu filho e da teimosia de não ter ligado para ele quando sai do trabalho.

Quando liguei para meu filho, ele já estava na condução a caminho de casa e ficou me monitorando pelo GPS. Pediu-me que eu não saísse dali que ele logo chegaria.

Ao avistar o meu filho, descontrolei de vez e comecei a chorar. Meu filho agradeceu imensamente ao relojoeiro o salvador da minha vida.

Fui para casa agarrada ao braço do meu filho, quase jogando ele no chão. Cortamos caminho pela galeria para evitar a mesma rua do quase assalto. Depois de calma dei ao meu filho o chegue do meu pagamento para ele depositar no banco.

Ao olhar o valor do chegue meu filho exclamou:

– Caramba! Se eles te ganham nós íamos ter sérios problemas para arcar com todas as nossas contas e despesas.

E olha que o maior provedor da casa é meu filho!

Obrigada Relojoeiro! Te devo uma.

Kika

About Kika

Meu nome já não importa, mais meu apelido é Kika. Sou carioca da gema, do signo de peixes. Já passei da idade dos sonhos. Por incrível que possa parecer, ainda não descobri a minha missão e no momento não estou fazendo questão. Amo a natureza e todos os seus habitantes. Gosto de ir ao cinema, ao teatro. Quase sempre escuto o bom Blues. Procuro sempre me manter ocupada, isso me faz esquecer os problemas e a solidão. Não gosto de situações aborrecidas e tediosas e muito menos ter que ser simpática quando não o quero ser e nunca me importo com o que falam de mim ou pensam ao meu respeito. Sou direta e nunca faço rodeios. Tenho vários defeitos e não faço questão de corrigi-los. Sou assim e pronto! Desejo que você goste da minha NAVE e qualquer contato é só deixar o seu recado que eu retorno. Muita paz a todos!

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