Hospital do Andaraí

Na semana passada, minha irmã teve um sério problema na coluna ao fazer as abdominais. Todos dizem que ginástica é importante, e me pergunto quanto vale o sacrifício para ter uma barriga sarada, um corpo perfeito. Eu mesma já fui adepta da ginástica. Fazia musculação, ginástica localizada, ginástica de alto impacto, ciclismo, natação e dança. Essas atividades me deixavam cansada e com síndrome de música alta, síndrome de lugar fechado. Acabei parando com tudo, quando vi que não valia à pena tanto sacrifício.

Ela sentiu uma dor, como se fosse um choque na altura da coluna e começou a gemer de dor. Não conseguíamos mexer nela e nem entender o que estava passando. Minha irmã estava deitada no chão da sala, com os pés em cima do sofá. Alguém    chamou o Corpo de Bombeiros ou a Samu, não sei bem. Imobilizaram-na e levaram para o Hospital do Andaraí.

Andaraí é um bairro de classe média localizado na zona norte do Rio de Janeiro, entre os bairros da Tijuca, Aldeia Campista, Vila Isabel e Grajaú. Minha irmã mora no bairro da Tijuca.

Chegando ao hospital minha irmã foi encaminhada para emergência e  internada. Viemos para casa e ficamos esperando os resultados dos exames. A princípio seria caso de ortopedia com provável cirurgia e depois de ossada do neurocirurgião. Minha irmã permaneceu na enfermaria, sentada numa cadeira de rodas a espera de uma vaga no leito.

Dois dias depois fomos visitá-las e o que vimos foi estarrecedor. Vimos um hospital sujo, com cheiro desagradável de urina e fezes, uma fila interminável de pessoas pobres como nós e pessoas miseráveis que nem saberia dizer se são seres humanos mesmos. Os funcionários são mal educados e respondem por evasivas a qualquer pergunta. Nas portas dos ambulatórios ficam os guardas. Não os Policias Militares (PM) mais sim aqueles seguranças de empresas contratadas. Eles são as crias de Hitler. Gritam, respondem mal, empurram e estão sempre nervosos. Depois de duas horas e meia na fila conseguimos entrar. Passamos por corredores lotados de pacientes com toda a espécie de doenças. Gente esfaqueada, acidentada, baleada, com HIV, enfermeiros correndo, médicos, maqueiros e o pessoal da limpeza, tentando a todo custo limpar o local.

Passamos por três corredores destes ate chegar à emergência. Uma sala pequena, um pouco maior que um quarto de apartamento. A princípio contei quinze pacientes entre mulheres, homens e crianças. Um paciente tinha uma ferida grande na perna que estava exposta e exalando odor forte. Havia também uma mulher idosa, muito abatida, fraca com olhar perdido e toda encaracolada na maca. Um homem mais jovem gemia alto de dor e crianças que não paravam de chorar. Podíamos ver os soros pendurados na veia e as mangueiras que levam a urina para um recipiente plástico abaixo da cama. Uma jovem mulher que vomitava sem parar, piorando o odor fé tico daquele lugar. O corpo de enfermagem estava por trás de uma espécie de balcão. Falavam muito e manuseavam seringas, remédios e gases. Saiam desesperados pelo corredor para medicar todos os pacientes que ali estavam sem dar vazão a tanta gente.

O cansaço desses profissionais era visível. Minha irmã continuava num canto da sala gemendo de dor, gritava, esbravejava. Assim como outros pacientes. Os enfermeiros nem ligavam, mostrando que já estavam acostumados com reações desse tipo. Tentamos de todo jeito encontrar o médico que havia atendido minha irmã, não foi possível e nem ao menos tivemos uma resposta da gravidade ou não do problema de minha irmã, só sabíamos que o caso dela era cirúrgico, mais no momento não havia médico e nem leito disponíveis.

Resolvemos ir embora e voltar na manha seguinte para ver se encontrávamos o médico de plantão. Quando chegamos ao pátio do hospital ficamos terrivelmente assustados. O hospital estava todo cercado por viaturas da Polícia Militar. Ambulâncias para tudo que era lado trazendo pessoas baleadas. Ficamos sabendo que ouve um tiroteio entre traficantes rivais no Morro dos Macacos, que fica entre os bairros.

Policiais corriam pelo hospital carregando pelos braços e pernas bandidos baleados e pessoas de bem que também fora acidentado no confronto. Trabalhadores que tiveram queimaduras horríveis, pois oito ônibus haviam sido incendiados com eles.

O saldo foram doze pessoas mortas e dois policiais, que tiveram o helicóptero abatido durante o intenso tiroteio, que começou na madrugada, estendeu-se por toda a manhã causando pânico em moradores dos bairros próximos. Os tiros atingiram uma escola municipal, provocaram curto-circuito e incêndio em duas salas. À tarde, o clima de guerra se espalhou pela cidade e oito ônibus foram incendiados em várias comunidades.

Saímos dali correndo e nem pensamos duas vezes. Tomamos o primeiro taxi que encontramos e rumamos para casa. Ao chegarmos a nossa casa, permanecia em nosso nariz aquele odor fético e as imagens horríveis que vimos nos corpos dos seres humanos que ali estavam.

feridos do morro dos macacosSegundo minha irmã o hospital ficou cercado pela polícia por três dias e os bandidos foram atendidos prontamente e até encaminhado para cirurgia e todos os esforços para salvar aquelas vidas.

Ficamos pensando o seguinte: – Se somos pessoas de bem, trabalhamos, estudamos, pagamos nossos tributos, seguimos a lei – Por que então não temos pronto atendimento e não há leitos disponíveis, assim como foi o pronto atendimento para os bandidos que seguiam logo para as salas de cirurgias e eram encaminhados para uma cama no quarto?

Será que não seria melhor sanar os males daquelas pessoas de bem, que se encontram na emergência, assim como minha irmã, e colocar os bandidos lá, baleados, esfaqueados, esfolados e pendurar um soro neles e deixarem gritando, vomitando, urinando, evacuando e com olhar perdido, sentados em cadeiras de roda? E que milagre foi esse que saiu médicos de todos os lados? Até poucas horas não havia médicos disponíveis.

Pois essa vergonha durou até o final da semana quando resolvemos tirar minha irmã daquela enfermaria. Fizemos uma vaguinha e resolvemos levá-la para um hospital particular. O diagnóstico foi um nervo que devido ao esforço da abdominal pinçou entre a terceira e quarta vértebra, gerando aquela dor que minha irmã não suportava. Foi descartada a cirurgia, deram medicação para dor com tratamento de fisioterapia Ortopédica com seções de RPG.  Foi mamão com açúcar!

Ainda estou pensando se operassem minha irmã o que exatamente iriam operar? Qual seriam os danos?

Agradeço ao Hospital do Andaraí por esta com a sua capacidade máxima lotada e aos bandidos que muito mais que minha irmã, precisaram ser atendidos imediatamente para não morrerem. Seria uma grande perda para a sociedade!

Vamos combinar!

Kika

About Kika

Meu nome já não importa, mais meu apelido é Kika. Sou carioca da gema, do signo de peixes. Já passei da idade dos sonhos. Por incrível que possa parecer, ainda não descobri a minha missão e no momento não estou fazendo questão. Amo a natureza e todos os seus habitantes. Gosto de ir ao cinema, ao teatro. Quase sempre escuto o bom Blues. Procuro sempre me manter ocupada, isso me faz esquecer os problemas e a solidão. Não gosto de situações aborrecidas e tediosas e muito menos ter que ser simpática quando não o quero ser e nunca me importo com o que falam de mim ou pensam ao meu respeito. Sou direta e nunca faço rodeios. Tenho vários defeitos e não faço questão de corrigi-los. Sou assim e pronto! Desejo que você goste da minha NAVE e qualquer contato é só deixar o seu recado que eu retorno. Muita paz a todos!

2 thoughts on “Hospital do Andaraí

  1. ricardo

    li seu comentario e fiquei muito triste pois fui fucionario desse hospital durante muitos anos estou tao estarrecido e envergonhado quanto vc . fui ao mesmo hopital essa semana e fiquei mais envergonhado ainda pois no setor que trbalhei(rx ) eu vi que o tratamento de hoje em dia nao e mais o mesmo da minha epoca nem o padrao das radiografias que eu tinha tanto orgulho vg pois era de uma qualidade de dar inveja a muitas clinicas particulares pois os tecnicos tinhao orgulho disso hoje eles fazem de qualquer maneira e mandao o paciente embora ou ficam repetindo os exaes varias vezes pois o controle de qualidade e uma mmm nao vou completar a palavra pois os raios x nao merece espero que um dia a direçao tome uma providencia junto a chefia para que nos tecnicos podermos nos orgulhar de dizermos novamente que algum dia trabalhei num hospita de referencia ate qualquer dia

    • Oi Ricardo… Tks pela visita. Infelizmente essa é a realidade da saúde brasileira. Não é só o RX que esta uma merda nos hospitais público. Tudo esta descontrolado a absurdamente errôneo. Espero que você esteja trabalhando em um ótimo hospital, cumprindo com dedicação a sua função. Grande abraço e volte sempre!

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